VOVÓ DUVALINA, MINHA "TOYA JARINA" (metáfora da diáspora) DO RIO MUTUACÁ.

22/10/2017 20:56

 

Rio moju, 22 de outubro de 2017.

Oi, vovó. Não sei bem como começar essa carta. Eu, uma mulher adulta de 36 anos. Cheguei dia 25 de setembro de Lisboa em um intercâmbio que conquistei com meu mérito, fui agraciada com uma bolsa , além meus recursos próprios, sou filha do seu filho, o capricorniano da contabilidade, terra, segurança . Fui lá nas terras das caravelas invasoras e descolonizei leituras de "mapas" de suposto domínio colonial. E o que são mapas para os filhos , filhas , netos, netas dos povos da Amazônia fora da fabulação do Estado?  Para comunidades ribeirinhas tratadas como ningueidade ? Aliás, nem pensadas no lócus dos debates raciais. Certamente a mestiçagem sendo uma ideologia do Estado bem arquitetada pela ditadura do tempo da escuridão varguista do Estado Novo que flertava na segunda guerra mundial entre o E.U.A, na época alguma democracia e a Alemanha Nazista, mas com uma queda gigantesca para Alemanha nazista.  Tais situações históricas para quem é filho ou filha daquele que veio do mato pouca diferença faz, pois nas décadas seguintes , a senhora deve bem saber que ocorreram os golpes militares na América Latina e no Brasil foram patrocinados pelo E.U.A, e nos anos de 1970 os grandes projetos  "faraônicos" do milagre econômico , mas um milagre para quem? A verdade foi quando milhares de famílias ribeirinhas passaram por uma outra diáspora e vieram para a capital, muitos sem terra, assim seu filho e meus tios chegaram em Belém do Pará. Apenas recentemente meu pai entendeu quem ele era , além de ribeirinho. E nessa época ainda centenas de povos indígenas desterritorializados brutalmente e arregimentados para servir a ditadura militar. Um dossiê de tempo-espaço (social) que precisa urgentemente ser feito, assim como novos mapeamentos do passado dos povos.

Minha memória referente aos parentes do Moju e minha infância segue fragmentada tanto quanto de milhares de povos da Amazônia que foram atiradas para fora de suas terras , mas indubitavelmente não há como retomar antigos territórios sem a conexão da memória oral coletiva na leitura descolonizadora dos tempos largos da escravidão e seus museus coloniais. Aliás, vejo a questão ribeirinha parecida com a problemática mestiza da Bolívia. Mas lá já estão anos luz na frente no movimento de descolonização da mestiçagem quando comparada com as lives do "índio" brasileiro sem pensar a história e tempo-espaço desses povos nas muralhas universitárias, aliás se quer pensam nessas outras coletividades e comunidades tradicionais.  O movimento indígena e pesquisadores(as) andinos desde os anos de 1970 vem retomando um trabalho sério trazendo os mestizos para o campo indígena e/ou afro.  O certo é que na década de 1970 há uma forte inciativa em todo territorio de processos com reais virilidades, vitalidades e fertilidades de processos de auto consciência étnica e passam então a compor organizações que reinvindicam para si a autoridade científica e o direito intelectual de gerar suas próprias sistematizações ideológicas, políticas e de ciências. Afastando-se do rol de intermediários de intelectuais dos muros acadêmicos da lógica execução de tarefas para projetos hegêmonicos.

Muito embora a realidade lá seja diferente da do Brasil em que a maioria da população é negra, e na Bolívia a maioria da pop. é indígena, mas o que se aproxima muito das realidades amazônicas e suas etnias indígenas submersas.

Quando a senhora atravessou para sua encantaria, eu lembro, já tinha seis anos .  Mas somente aos 8 anos "lembrei".

Esta memória estava adormecida até ontem quando sonhei com a senhora abençoando meus braços aliados nesse momento que estou vivendo, fiquei muito emocionada de vê tamanha formosura e simplicidade de alguém que veio de tão longe para me mostrar sobre confiança nas travessias nas águas turvas da vida.

Tinha que ser a senhora sim, minha vó paterna, a mais oculta no meu inconsciente coletivo, vinda dos rios, que faz parte de uma cultura chamada cabocla. Aquela que tem uma relação cósmica e de subsistência com a natureza atemporal. Andam pelas matas, transitam pelos rios de canoa, herança de seus antepassados indígenas, ainda que atualmente, o tal do progresso, a agropecuária, abertura de rodovias e a implementação de grandes projetos, a exemplo de mineradoras e hidrelétricas, tem manchado com sangue cada raiz de suas existências.

Recordo algumas férias que passava com a senhora em seu sítio ás margens do rio Mojú, eu tinha cinco anos de idade, e saia para passear de canoa com minhas primas. Amava aqueles passeios, e continuaria me jogando nessas águas, se não fosse dois acidentes que passei. O primeiro foi quando passeando com as primas mais velhas de canoa, a correnteza virou o bote, e eu pequeninha agarrada no ombro da prima, nadadora de ponta desses rios, sobrevivo. Lembro que as primas levaram uma baita bronca, e eu um baita um susto.

Depois deste pequeno naufrágio, passei por outro fatídico e mais assustador, dessa vez sem está no colo da prima, desobedeci a mamãe e fui correndo vê o meu irmão mais velho e os primos pulando da ponte para o canal. Um show de natação melhor do que os filhos e filhas da elite “branca” que pagam taxas altíssimas na companhia atlética ou na assembleia de paraense, os nadadores e as nadadores habitantes das matas ou seus descendentes nadam sincronizados sem toca e óculos, possuem nadadeiras e olhos treinados pelas águas que garantiram suas (r)exitências na epopeia regida pelo “dawvinismo social”.  

E lá estava eu curiosa com aquele circuito de pulos e acrobacias dos meus parentes maiores, a única criança abraçada num tronco de madeira fincado na ponte bem próximo da beirada do rio, contudo com o passar do tempo fui ficando cansada e comecei a senti um sono irresistível, até que repentinamente eu adormeci e a queda traiçoeira no canal, eu apenas me vi acordada quando já estava lá no fundo, sem chance de voltar para cima, sem grito e sem resistência, acredito que ali foi o único momento da minha vida que não lutei por ela, a vida. Era como se eu tivesse chegando num lugar incrível, contudo alguém não deixou eu fazer essa passagem, uma moça linda, uma bota que estava por ali a nadar me viu caindo e afundando, pegou-me pelos meus cabelos lisos e longos, e me trouxe de volta.  Depois que retornamos em terra, ela me entregou para minha mãe que teve uma crise de choro depois da moça ter contado o que aconteceu e ainda levei umas palmadas. Desde então nunca mais mergulhei tão fundo num rio, nem consegui desenvolver a habilidade que meus primos e primas possuem de nadar lindamente em águas de fonte natural.

Estas são as lembranças mais fortes que tenho dos meus cincos anos de vida, vovó, perto de sua ancestralidade e do seu lado. Lembro ainda da sua beleza anciã, o quanto chamava minha atenção no auge de seus 85 anos. Sem dúvida deve ter sido uma jovem cabocla linda.

Creio que o resultado de tal beleza foi reflexo de uma violenta interculturalidade histórica na região do Baixo Tocantins, entre Cametá e Mojú, as beiras do rio Mutuacá, a presença de colonizadores europeus, para além dos lusitanos nas disputas territoriais, lá já estavam em muitas povoações indígenas (Apinagés, Timbiras-Gaviões, Agurujá, Acarajá-Pitanga, anambé, dentre outros povos) forçadas em seus deslocamentos para aldeias missionárias ou ainda os casamentos arranjados entre índias e “brancos”, ainda no século XVIII, os descendentes dessa união forçada já eram chamados caboclos, apesar dessa população cabocla se configurar de forma mais definida e heterogênea a partir do século XIX.

Esta cultura cabocla das matas e rios dos sertões do Pará foi resultado ainda da chegada de um terceiro elemento, os africanos, o que lhe dar uma tonalidade de cor e riqueza de identidades ainda maior.

Vovó Duvalina, uma senhorinha esbelta, de estatura mediana, morena cor de jambo e lindos cabelos prateados, juba das raízes indígenas expansiva, como ela dizia, e de incríveis olhos esverdeados, nativa das águas do Baixo Tocantins, me leva com as lembranças de suas origens a refletir a história dos povos da floresta, dos caboclos, termo que deriva do tupi caa-boc, que quer dizer “o que vem da floresta”.

Vovó me leva ainda com suas bênçãos a pensar minha própria história pessoal e acadêmica, apesar de longe daquele seu tempo e espaço que outrora despojava um dos mais belos cenários de fauna, flora, indígenas e “gente nativa”, hoje se configura como o “arco do desmatamento”, quase não existindo mais a vida sustentável que ali se via e vivia.

Vovó Duvalina, a minha mestra da cultura cabocla e da inspiração que me abraça em sonho. Que me leva ao infinito e além. ♾ 

Com amor e eternas saudades.

Alanna Souto Cardoso. ( 10/ 04/ 1981)