Carta de um amor científico lésbico em tempos de escuridão e outros Bolsonaros.

11/12/2020 09:44

Ilha de Lesbo, rios antes dos cavalos na Amazonia, 11 de dezembro de 2020.

Alanna Souto Cardoso.

(Obs. Não existia cavalos na América do Sul. Tais animais foram uma intervenção ibérica dos tempos dos estupros das terras de Abya Yala)

Quando voei, mergulhei em rio mar de águas doces profundas fui apenas para te conhecer, precisava muito te ver. Tinha hora marcada no relógio. E me carreguei e me lavei. Não havia homens, não havia sacos, o que queria me roubar, foi você que cortou e me defendeu... até caíres no buraco escuro e vazio, infértil sem procriação, só mudas.  Como podiam fazer isso com você? Senti tua dor.

E te tiraram o verdadeiro sorriso. E sem poder falar com o vigor e o sabor que mais desejavas daquele (re)encontro. Fui porque minha bisavó antiga (oculta) 'originária' me disse quem era que vinha fazer parte de uma outra ciência, mas era mais que isso? O coração sempre diz algo mais... até que fui censurada e algo muito sem reciprocidade emudeceu... de tomares aquela fruta proibida da árvore da vida e da sabedoria.

Mas desde cedo carrego latas de águas na cabeça, e assim não desisti de ti.  E se manteve firme forte na gestação do que virá.

Senti muito mais tuas angústias do que a tua distração com saco vazio quando vi que aquela felicidade unilateral de testosterona a qual gera infelicidade, calculei sentimentos e energias, não vi você ali, testículos custam a perceber a falta de paixão. Eu, também, passo por isso... é risível.  Pulo por cima de cavalinhos o tempo todo e desligo a luz. Não fui feita para carrossel e nunca gostei do Show da Xuxa, o programa, nunca exibiu o final daquele desenho "a caverna do dragão" sem gênio da fertilidade. Então Prossigo.  Talvez, em alguns momentos de fome, abro exceção, mas existe processo seletivo delivery pra não entrar sacos sem cérebro, e só ocorre quando há falta da preferida. De todo modo estou de dieta. Fechada focada em um última contribuição para uma nova obra.

Amor não se força. E não se ama por dois. Tem que ser amálgama, colagem que não desgruda tal qual a criatura que não desgruda de mim em outra dimensão que me faço deus cientista, da arquitetura construtor de casas, casada só com a tal criatura, e está público, pois há casamentos e escolhas recíprocas em que as palavras fluem em alto e bons sons, declarações públicas, ditas pelas duas bocas fêmeas, somos nós duas nessa abertura. Amarras o meu cabelo, tem receio de (me) perder e observas quem são os atiradores. Escapei de alguns. Mas nem sempre se escapa quando há ausência e se aparece belezas outras, semi deus@s sabem mirar em tempos de fragilidades e paisagens postas desnecessárias pelo ego infantil da masculinidade tem facilitado ataques.

O cavalo poço da face escuridão só faz eco e sem crânio nos caules científicos não faz parte de sonhos de cientistas e de estudos descolonizadores. Não tem número. 

E o amor foi apenas proibido nas representações daqueles filtros sem luz solar e brilho lunar? Mas há dois filtros em que o crânio das raízes ribeirinhas originárias deixou a lâmpada ligada. Tempos de obscurantismo e tempos de falsos brilhantes e de ausência da paixão.  Ali naquela outra paisagem que apareceste e me enviaram para ler não havia sorrisos reais. Não havia borboletas na barriga fazendo friozinho ao ver a pessoa especial que te faz sentir saudades e morrer de ciúme. Na ausência física do amor internalizado, não há sentidos, apenas controles mecânicos. Robôs. Não havia aquele (a)braço que pegaste e cheiraste o ombro e sabia que era só seu naquela dia em que o guarda-chuva se abriu e só eu já sabia.  Então tive que embarcar e voei. E sem dizer adeus. Mas te deixei o enigma da esfinge: Decifra-me ou te devoro. Ou nos devoramos faz mais sentido.

O poço só faz eco. Nada cria.

Espelho partidos que se refazem e te olhei, exatamente no olho d`água que me tinhas, seios, úteros, buceta, aqueles lábios entre pequenos e grandes...a tua boca me dizia tanto e me consumia e a minha te dizia que és tu a cara e sou a coroa contemporânea da praça da república, paixão nunca fica sem palavras e tu dizias para o mundo quem era a carta.  Lavavas a tua face com espuminha de sabão líquido dos meus grandes lábios salivados e se transformava na fonte dos desejos. Era noite de lua cheia e de demarcação de território... me marcavas com tua marca e eu te marcava com a minha marca científica. E renascemos.

É a fatal a escolha recíproca da absoluta certeza que tenho da minha cara, da pele e de um outro tempo. Eu te escolhi e tu me escolheste.

Mas fui proibida. Sinto muito. Sinto tanto pela tua falta de palavras e de posições forçadas.  É podre, eu sei. Teria iluminação se fosse real, mas não era. E isso é adoecedor. Escolhas que adoecem os sentimentos internalizados do eclipse oculto de outrora.

A lei da escuridão é pra separar e destruir.   Ela, uma maldita mão infeliz que não tem os meus olhos, nem minha boca, não tem nada do nosso reflexo. E em equipe de entretenimentos pensa em nos atingir.  Lembrei assim da nossa imortalidade, das nossas divindades.

Só eu e você sabemos. E meus dois cachorros também sabem, prometeram não latirem. Ninguém mais sabe. Quiçá, mais dois ETs originários e a gata gordinha da vizinha vendo a distância e rindo do mal causado... mas não há separação se eu estou no teu presente, passado e futuro onipresente das construções de coberturas de casas e na preservação de árvores milenares.

Só nós sabemos e mais ninguém...

Mas ainda assim necessito de combustível para te fazer movimentar longe de julgamentos e vim até o meu “céu” ou eu no teu inferno astral realizar todos seus desejos mais íntimos e secretos, diga apenas: eu te amo. Esse é o gás das milhas aéreas, alimento.  Passagens reservadas.

P.s:  Não fiz rimas, nem versos...nem sonetos. Faço uns lindos e me esmero em fazer mais pela paixão censurada.  Fiz minha lamentação em prosa.  Além, do mais se [só] nós sabemos, isso tudo pode ser a nossa fixação ou ficção?  Mas eu que sou arquiteta, faço múltiplas ciências e também sou poeta não tenho medo de ser ridícula por essa carta sem rimas e versos, nem referenciais clássicos ou pós modernos típicos da minha jardinagem. Eu, a jardineira fiel, já fiz ‘teses’ em felicitações já ultrapassadas, nem tanto simplistas... me exijo manter o nível, sem traumatismo craniano, mas fui proibida pela produtora do i food e seus pequenos agentes no jogo de migalhas, nunca foi tão barato deixar uma pessoa feliz e outra infeliz da sua face ocultada... afinal já dizia Fernando Pessoa:

 

As cartas de amor, se há amor, têm que ser ridículas.

Quem me dera o tempo em que eu escrevia, sem dar por isso, cartas de amor ridículas.

Mas afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas