VOVÓ DUVALINA, MINHA TOYA JARINA DOS RIO MUTUACÁ.

22/10/2017 20:56

Oi, vovó. Não sei bem como começar essa carta. Quando a senhora atravessou para sua encantaria, eu ainda nem tinha seis anos de idade.  

Esta memória estava adormecida até ontem quando sonhei com a senhora abençoando meus braços aliados nesse momento que estou vivendo, fiquei muito emocionada de vê tamanha formosura e simplicidade de alguém que veio de tão longe para me mostrar sobre confiança nas travessias nas águas turvas da vida.

Tinha que ser a senhora sim, minha vó paterna, a mais oculta no meu inconsciente coletivo, vinda dos rios, que faz parte de uma cultura chamada cabocla. Aquela que tem uma relação cósmica e de subsistência com a natureza atemporal. Andam pelas matas, transitam pelos rios de canoa, herança de seus antepassados indígenas, ainda que atualmente, o tal do progresso, a agropecuária, abertura de rodovias e a implementação de grandes projetos, a exemplo de mineradoras e hidrelétricas, tem manchado com sangue cada raiz de suas existências.

Recordo algumas férias que passava com a senhora em seu sítio ás margens do rio Mojú, eu tinha cinco anos de idade, e saia para passear de canoa com minhas primas. Amava aqueles passeios, e continuaria me jogando nessas águas, se não fosse dois acidentes que passei. O primeiro foi quando passeando com as primas mais velhas de canoa, a correnteza virou o bote, e eu pequeninha agarrada no ombro da prima, nadadora de ponta desses rios, sobrevivo. Lembro que as primas levaram uma baita bronca, e eu um baita um susto.

Depois deste pequeno naufrágio, passei por outro fatídico e mais assustador, dessa vez sem está no colo da prima, desobedeci a mamãe e fui correndo vê o meu irmão mais velho e os primos pulando da ponte para o canal. Um show de natação melhor do que os filhos e filhas da elite “branca” que pagam taxas altíssimas na companhia atlética ou na assembleia de paraense, os nadadores e as nadadores habitantes das matas ou seus descendentes nadam sincronizados sem toca e óculos, possuem nadadeiras e olhos treinados pelas águas que garantiram suas (r)exitências na epopeia regida pelo “dawvinismo social”.  

E lá estava eu curiosa com aquele circuito de pulos e acrobacias dos meus parentes maiores, a única criança abraçada num tronco de madeira fincado na ponte bem próximo da beirada do rio, contudo com o passar do tempo fui ficando cansada e comecei a senti um sono irresistível, até que repentinamente eu adormeci e a queda traiçoeira no canal, eu apenas me vi acordada quando já estava lá no fundo, sem chance de voltar para cima, sem grito e sem resistência, acredito que ali foi o único momento da minha vida que não lutei por ela, a vida. Era como se eu tivesse chegando num lugar incrível, contudo alguém não deixou eu fazer essa passagem, uma moça linda, uma bota que estava por ali a nadar me viu caindo e afundando, pegou-me pelos meus cabelos lisos e longos, e me trouxe de volta.  Depois que retornamos em terra, ela me entregou para minha mãe que teve uma crise de choro depois da moça ter contado o que aconteceu e ainda levei umas palmadas. Desde então nunca mais mergulhei tão fundo num rio, nem consegui desenvolver a habilidade que meus primos e primas possuem de nadar lindamente em águas de fonte natural.

Estas são as lembranças mais fortes que tenho dos meus cincos anos de vida, vovó, perto de sua ancestralidade e do seu lado. Lembro ainda da sua beleza anciã, o quanto chamava minha atenção no auge de seus 85 anos. Sem dúvida deve ter sido uma jovem cabocla linda.

Creio que o resultado de tal beleza foi reflexo de uma violenta interculturalidade histórica na região do Baixo Tocantins, entre Cametá e Mojú, as beiras do rio Mutuacá, a presença de colonizadores europeus, para além dos lusitanos nas disputas territoriais, lá já estavam muitas povoações indígenas (Apinagés, Timbiras-Gaviões, Agurujá, Acarajá-Pitanga, dentre outros povos) forçadas em seus deslocamentos para aldeias missionárias ou ainda os casamentos arranjados entre índias e “brancos”, ainda no século XVIII, os descendentes dessa união forçada já eram chamados caboclos, apesar dessa população cabocla se configurar de forma mais definida e heterogênea a partir do século XIX.

Esta cultura cabocla das matas e rios dos sertões do Pará foi resultado ainda da chegada de um terceiro elemento, os africanos, o que lhe dar uma tonalidade de cor e riqueza de identidades ainda maior.

Vovó Duvalina, uma senhorinha esbelta, de estatura mediana, morena cor de jambo, como ela dizia, e de incríveis olhos esverdeados, nativa das águas do Baixo Tocantins, me leva com as lembranças de suas origens a refletir a história dos povos da floresta, dos caboclos, termo que deriva do tupi caa-boc, que quer dizer “o que vem da floresta”.

Vovó me leva ainda com suas bênçãos a pensar minha própria história pessoal e acadêmica, apesar de longe daquele seu tempo e espaço que outrora despojava um dos mais belos cenários de fauna, flora, indígenas e “gente nativa”, hoje se configura como o “arco do desmatamento”, quase não existindo mais a vida sustentável que ali se via e vivia.

Vovó Duvalina, a minha mestra da cultura cabocla e da inspiração que me abraça em sonho. Que me leva ao infinito e além.

Belém, 22 de outubro de 2017.

Com amor e eternas saudades.

Alanna Souto.