UMA CARTA PARA NANÃ

15/03/2015 19:49

Por Alanna Souto

Lembro dos tempos de menina por volta de mais ou menos dos sete anos quando a senhora do fio da vida deitava todas as noites comigo e me botava para dormir, velava meu sono, depois deitava-se ao meu lado e dormíamos juntas, creio que aí comecei apreciar a sensação tão aconchegante e protetora de um colo feminino depois dos braços materno, foi o período que ela veio morar conosco em casa, Vovó estava de passagem para algum lugar que ela dizia que só ainda não havia partido porque ela não encontrava as sandálias em todas as vezes nas quais o Vovô a visitava em seus sonhos para buscá-la, até que um dia ela deve ter encontrado e se foi...e assim construir meu imaginário na infância a respeito da morte, uma passagem para algum lugar fora da dimensão terrena a qual um ente querido desencarnado viria de longe ajudar atravessar o portal, dependendo das atitudes da pessoa seria levada para os “céus” ou “infernos” na minha ótica cristã quando menina.

Vovó partiu, contudo deixou para os netos toda simbologia e presença de espírito   que anos mais tarde depois da fase juvenil transviada e atéia ao me debruçar na busca do misterioso já crendo nessa inteligência “quântica” e transcendental que originou universo, mediante os processos de metamorfose da vida a aqueles que se propõe transformar-se  —  quando nos encantos do conhecimento da Umbanda e dos estudos dos Orixás passei a ter acesso em uma ótica não mais somente advinda da formação das ciências humanas e sociais, mas percebendo o enfoque conectivo e simbólico dessas divindades ou emanações divinas como uma proposta mais libertadora de si e das agruras do mundo, um ideal mais liberto de toda forma de poder e doutrinações ideológicas.

Vovó o elo do fundamento de Nanã, a mãe milenar do útero cósmico, traz consigo tudo aquilo que é mais antigo e terno. Por ser tão próxima da Criação, co-criadora do sopro das vidas e do apagar delas, amada e (des) temida, protetora sublime de todos os frutos oriundos da gestação, observa cada ser como uma estrutura única parida de sua cria que deve ser conduzida e esgotada de seu ciclo cármico sob os passos dançante de Oya de Balé, a única irmã das emanações Mater dos desdobramentos do Uno que adentra o seu vale das almas para de lá encaminhar em direção às suas mãos evolutivas aqueles seres transgressores da lei divina em ação.

Nanã a vovó maior que acalentou, embalou, pacientou e emantou toda nossa ancestralidade africana empedernida de suas raízes, forçados a girarem em torno da árvore do esquecimento pelos senhores da escravidão, antes de embarcarem das costas africanas rumo ao nuevo mundo, para assim perderam a memória dos seus antepassados, bem como de reagirem a vilania de seus algozes, contudo a força grandiosa da velha mãe, a grande senhora dos povos ancestrais revivifica e re-significa suas reminiscências trazidas em suas almas nuas, sem roupas e pertences, arrancados do seio de sua família e brutalmente separados de seus filhos, coisificados de sua história, chegam nas Américas, nos litorais atlânticos e nos rios da Pan-Amazônia recriando toda sua identidade, transvestindo-se nos quilombos e mocambos, demarcando sua voz e liberdade pela direito de viver com dignidade.

Dos troncos formativos de nossos antepassados e das árvores genealógicas amazônicas que nos liga tão fortemente com esses povos guerreiros que se misturaram, uniram-se e se miscigenam, africanos e indígenas, Vovó Nanã é a estrela cadente que se desloca dos céus pantanosos mais longínquos para levar sabedoria de suas mitologias e ciência nos campos do saber desses povos para seus descendentes transmitirem às suas gerações de modo a (re)constituir essa vivência libertadora, curativa dos males físicos e da alma e assim nos tornamos na escalada evolutiva da transformação de si verdadeiros revolucionários capazes de sacudir as estruturas obsoletas desse “mundo tão desigual, de um lado esse carnaval, do outro a fome total...”, já cantava a língua de Gil.

Deste tronco evolutivo de Nanã que ilumina as constelações e vidas estelares que quase invisíveis a limitada visão humana, os kaapor reconhecem quando suspendem suas vistas para o céu ao perceberem o movimentar de uma estrela cadente e dizem “lá vai Mahyra, o nosso avô!”, ergo minha cabeça e reconheço lá em cima nos altos das estrelas aquela rosa branca de Afuá que ninava meu sono naquelas noites da minha meninice, quiçá até hoje.

Saluba Nanã!

Para minha Vó Branca (10 / 04 / 1911 – 04 /10/ 1989)

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