TEMPLOS SAGRADOS, DIRIGENTES E DISCÍPULOS- PARTE II: REFLEXÕES SOBRE FANATISMO RELIGIOSO.

24/01/2013 02:22

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Alanna Souto

Msc.História Social da Amazônia

Palavras-chave: Ética; tolerância; religião; umbanda.

 

A palavra “fanático” tem a seguinte etimologia segundo o Dicionário Houaiss da língua portuguesa: lat. fanatìcus,a,um 'que pertence ao templo (fan), que é inspirado pelos deuses, entusiasmado, apaixonado', pej. 'louco, delirante, furioso, fanático'. Ou seja, o fanático é aquele que está apegado ao “templo” (espaço físico) muito mais do que está preocupado com o “Sagrado”, prendendo-se demasiadamente a regras rígidas, a procedimentos rituais, dogmas e tabus impostos no geral pela cabeça de suas autoridades.

Como já bem disse o cientista da religião e sacerdote umbandista Alexandre Cumino numa de suas reflexões, “o fanático além de não pensar em outra coisa, se não no “templo” com suas regras, também crê que sua religião é melhor que as outras...” Almeja converter a todos a salvar o mundo com sua religião, pois considera a única com condições pra isso, interferindo inclusive no âmbito pessoal, emocional e “alimentar” dos seus discípulos e seguidores, o fanatismo, diz o sacerdote, é um vício no campo da fé.

Sobre fanatismo podemos citar ainda a perseguição que se dar á ex-membros que por ventura decidem romper com o espaço religioso, em especial, se esses membros tiverem saído por discordâncias internas e/ou desentendimentos pessoais. Muitas vezes as autoridades sacerdotais induzem seguidores usando em vão o nome de Deus, guias ou outros fundamentos divinos para exigirem uma fidelidade cega ao “templo” até mais do que pelo sagrado, cega e capenga no sentido de ignorar que o Divino Maravilhoso jamais intervirá em situações pessoais mesquinhas, e muito menos, manipulará as criaturas humanas a romperem amizades, laços familiares, profissionais, políticos ou culturais para agradar e jurar eterno apoio e concordância absoluta ao sacerdote ou zelador de santo, afinal o juramento “OBEDIÊNCIA, HUMILDADE E LEALDADE” não seria ao SAGRADO, acima de tudo, aos guias e a Deus? Ou será o “templo” e autoridade sacerdotal maior que ELES? Para os fanáticos[in] conscientemente sim...

É óbvio que devemos ser obedientes, humildes e LEAIS aos nossos sacerdotes, nossos orientadores terrenos, mas sem subserviência, afinal autoridade é uma coisa, autoritarismo é outra...lealdade com bom senso crítico-analítico respeitoso, ética para com a hierarquia humana no templo, mas sem denegrir, alijar ou manipular aqueles que por ventura discordem com o “templo” ou aqueles que tenham rompido com o espaço ou mesmo para aqueles que mantiverem suas relações pessoais ou impessoais seja lá com que for, mesmo que desagrade o EGO do sacerdote do “templo”. Afinal ao sacerdote cabe apenas servir como veículo de comunicação, orientação, ponderação e amparo espiritual para com seus discípulos, e não leva-los, induzi-los a participar de suas ambições, sentimentos mal resolvidos e/ou rixas pessoais. Tal ação não seria um tipo de perversão da fé? Enfim, o que é fanatismo, a intolerância religiosa, se não uma fé pervertida, viciada e desequilibrada.

Na Idade Média, a intolerância religiosa se intensificou contra os judeus e os heréticos em geral. Os inquisidores perseguiam dissidentes e os obrigavam a abjurar sua “heresia”, palavra que em grego significa “escolha”. A Inquisição Espanhola reprimiu os judeus, forçou-os à conversão ao cristianismo e, finalmente, expulsou-os da península. Esta se tornaria uma práxis comum em outras épocas e outras nações. Com a identificação entre religião e política, entre as diferentes facções do cristianismo (católicos, protestantes, anglicanos etc.) e os respectivos governos representativos dos Estados-Nações, a perseguição aos dissidentes aumenta demasiadamente e também motivada pelos interesses políticos em disputa. A inquisição na Espanha, por exemplo, foi usada para “forjar a unidade nacional”. Mas a utilização deste recurso não se restringiu ao catolicismo romano.

No século XVIII, finalmente na conhecida era das luzes, em especial, os iluministas Espinoza, Locke e Voltaire passam a defender e escrever tratados sobre tolerância diante de uma sociedade impregnada de dogmas e guerras políticas-religiosas. O primeiro percebera ao escrever Tratado Teológico-Político de 1670 que há uma discrepância imensa sobre uso que os homens fazem das escrituras sagradas “vemos que quase todos”, redige Espinosa, “fazem passar por palavras de Deus as suas próprias invenções, e não procuram outra coisa que não seja, a pretexto de religião, coagir os outros para que pensem como eles” (TTP-VII; G-III, P.97; A., P.206). Os teólogos preocupam-se em corroborar com a autoridade divina, mediante os textos sagrados, suas próprias fantasias e arbitrariedades. Nesse sentido, argumenta o filósofo, cabia ao sábio expor essas motivações pouco nobres, ocultas por detrás do linguajar sacerdotal e teológico. Deus, na verdade, não tinha nada a ver com aquilo. Todo o mundo é ortodoxo para si mesmo, isto é, é portador da verdadeira fé, o que indispõe qualquer um para com a fé dos outros. Por isso é preciso combater tais certezas para que não se prolifere em guerras santas, guerra civil, pois a verdadeira religião não se prende à deslumbramentos, nem ao domínio eclesiástico e muito menos em exercitar-se pela força.

Locke por sua vez em Carta acerca da Tolerância-1689:

Ninguém está subordinado por natureza de nenhuma igreja ou designado a qualquer seita, mas une-se voluntariamente á sociedade na qual acredita ter encontrado a verdadeira religião e a forma de culto aceitável por Deus. A esperança da salvação que lá encontra, como se fosse a única causa do seu ingresso a certa igreja, pode igualmente ser única razão para que lá permaneça. Se mais tarde descobre alguma coisa errônea na doutrina ou incongruente no culto, deve sempre ter a liberdade de sair como teve para entrar, pois laço algum é indissolúvel, exceto os associados a certa expectativa de vida eterna. A igreja é, portanto, sociedade de membros que se unem voluntariamente para esse fim. (Locke ,1973, P.13)

            Percebe-se assim no trecho destacado desse texto escrito por um filósofo que viveu numa outra época a atualidade de sua reflexão, tal defesa a liberdade e tolerância religiosa que deve existir em todos os tempos, sociedades e “templos” religiosos. Destaca a tolerância como sinal característico da verdadeira religião, pois define esta como se destinando não à pompa externa, à dominação eclesiástica ou ao uso da força, e sim à regulamentação da vida dos homens segundo as regras da virtude e da piedade. Desta forma, a tolerância aproxima da verdadeira religião, enquanto a falta de tolerância aparece como sinal de predominância de fatores não genuinamente religiosos. E diz mais, assim como Cristo, jamais religioso ou templo algum deverá convencer pela força, a tolerância está intrínseca nos ensinamentos do cristianismo de raiz.

E por fim Voltaire, diga-se passagem o mais combativo de todos, em Dicionário filosófico de 1764, reflete sarcasticamente e diz que tolerância nada mais é que:

“(...) o apanágio da humanidade. Estamos todos empedernidos de debilidades e erros; perdoemo-nos reciprocamente nossas tolices, é a primeira lei da natureza. (...) É claro que todo indivíduo que persegue um homem, seu irmão, porque não é da sua mesma opinião, é um monstro. Isto está fora de dúvidas.” (P.180).

 

Nos trechos destacados acima se percebe a fina ironia de Voltaire ao definir “tolerância”, afirmando ser um atributo essencial do ser humano e como sendo propriedade comum da humanidade, deve-se começar com o autoperdão! Logo em seguida nessa obra após algumas reflexões históricas sobre conflitos religiosos e políticos de sua época e de tempos anteriores, deixa bem claro a hediondez que habita naqueles que oprimem o próximo por discordância de ideias e/conflitos pessoais.

A intolerância religiosa, nesse sentido, soma-se a intolerância política, cultural, étnica e sexual. A “Santa Inquisição” está presente no cotidiano dos indivíduos no âmbito do espaço domestico, nos locais do trabalho, nos espaços públicos, religiosos e privados. Ela assume formas sutis de violência simbólica e ações extremadas de ódio, desespero, medo, descontrole, enfim....envolvendo todas as esferas das relações humanas. A intolerância é, portanto, uma das formas de opressão de indivíduos em geral debilitados por sua condição econômica, cultural, étnica, sexual, emocional e até mesmo por fatores etários. Em algum momento podemos nos surpreender com os “ditadores” que podem existir dentro de cada um de nós, o primeiro passo, como diz Voltaire é o reconhecimento sincero dessa semente perniciosa, o autoperdão e o perdido de perdão ao próximo, se possível e assim saná-la ou pelo menos contê-la.

 Tais análises embasadas nesses autores clássicos do debate sobre liberdade e tolerância nos leva a questionar atitudes de intolerância no âmbito de religiões não institucionalizadas, a exemplo da Umbanda, pois há templos que passam a instituir dogmas e tabus no espaço sagrado, o que não corresponde à natureza livre e libertária da Umbanda, além de não ser uma instituição. A partir do momento que acontece a “dogmatização” explicita ou sutil, culto ativo ou passivo da personalidade sacerdotal, lealdade cega e absoluta a essa autoridade (mais do que com o SAGRADO), esse templo sim estará institucionalizando-se indo na contramão dos fundamentos da Lei divina em ação (Umbanda).

A umbanda é universalista, o genuíno adepto dessa religião vai sentir paz e alegria em qualquer “casa divina” ou grupo religioso que cultue e pratique o bem, independente da linha espiritual. A Umbanda é uma filosofia de vida, uma forma de pensar e viver, sobretudo, sem máscaras e aprisionamentos. A lembrar dos dizeres de Alexandre Cumino, “ser Umbandista é ter o pé no chão e a cabeça aberta a tudo. Religião não é um conjunto de regras, práticas, dogmas e tabus… religião é uma experiência concreta com o sagrado”. E o que se busca nela transcende o intelecto. O pensar é algo bom, intelectualizar nem sempre é bom, muita coisa foi feita para sentir e não para se entender. 

A religião, portanto, é o nosso religare com o Divino Maravilhoso, de forma autônoma e livre, no sentido de ser uma busca individual e solitária de cada um rumo ao autoconhecimento, “cura” e libertação. Fazer da sua vivência religiosa um processo de dependência, seja emocional, física e material para com o templo, zelador e/ou membros de sua corrente é aprisionar a sua “experiência” sagrada, viciar sua fé e por fim padecer do mal do fanatismo.

Saravá!

Referencial Bibliográfico:

CUMINO, Alexandre. Umbandista sim! Fanático não! Acesso: http://lacosespirituais.wordpress.com/2012/04/16/umbandista-sim-fanatico-nao-alexandre-cumino/

ESPINOSA, Baruch de. Tratado Teológico-Político. Tradução, introdução e notas de Diogo Pires Aurélio. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, s/d.

LOCKE, John. (1978) Carta Acerca da Tolerância. In: LOCKE, John. (1978) Carta acerca da tolerância; Segundo Tratado sobre o governo; Ensaio acerca do entendimento humano. São Paulo: Abril Cultural, pp. 01-29. (Os Pensadores).

VOLTAIRE. Dicionário filosófico. Acesso: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000022.pdf

 

 

 

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