CRÔNICA DE UM SANTO GUERREIRO- DE SÃO JORGE A OGUM

22/04/2013 21:21

Alanna Souto

Msc. História social da Amazônia

 

Salve Jorge!

                                                          

Salve Ogum!

fonte imagem:by Rodolfo Troll

 

Fui criada no seio de uma família popular católica fervorosa, meus pais devotos amorosos e fieis ao santo guerreiro, não podia assim deixar de refletir sobre as proezas e a simbologia que cerca São Jorge, o qual, também, sou devota e “filha”, digo no sentido associativo ao orixá Ogum no qual os povos africanos que desembarcaram nessas terras nos tempos de colonização sincretizou o santo católico a este orixá .

Na Umbanda e nas religiões de matriz afro todo ser vivo tem uma “mãe” e um  “pai”, ou seja, um orixá feminino e um masculino, logo, ogum é meu “pai” de cabeça, como já foi manifestado no “santo”, “filha” de Yansã com Ogum. Etimologicamente, ori prediz cabeça, coroa, alto;- força; ou seja, força do alto. No sentido mais amplo e profundo, orixás na umbanda significam emanações divinas de D`us, Pai, o criador, são co-criadores, construtores e mantenedores do universo e da natureza.

Dia 23 de abril louva-se São Jorge, santo padroeiro de diversos países e estados do Brasil. No Rio de Janeiro a devoção é tão forte que foi promulgada tal data como feriado no estado. É dia de ir à igreja prestar homenagem ao santo, orar, cantar os hinos de libertação, conclamar sua legião... Nos terreiros é dia de festa, os tambores rufam, os atabaques choram de amor, gratidão, reconhecimento, força, proteção, abertura de caminhos, por misericórdia cantam para Ogum, o ordenador da lei, o vencedor de demanda!

A história ou as histórias de São Jorge são diversas e conhecida pela maioria, o soldado romano da Capadócia que desafiou o imperador Diocleciano ao se assumir cristão numa sociedade totalitária e politeísta, recusou-se a participar de qualquer ação que fosse para exterminar os cristãos do território imperial romano, sendo assim castigado, torturado e executado no dia 23 de abril, mais ou menos, no ano 303 d.c.  Essa é a história factual, baseado em fontes documentais, a exemplo da obra Flos Sanctorum , que diz muito sobre a vida dos santos.

São Jorge, o dragão e a lua, são muito mais que personagens de lendas do guerreiro salvando donzelas e inocentes de repteis gigantes, aprisionando em cavernas ou na “lua” ou mesmo subjugando “monstros” com sua espada, montado em seu aguerrido cavalado branco. O que não passam de metáforas sobre as lutas internas e externas humanas.

Aliás, como sempre muito feliz e inspirado foi o mestre Leonardo Boff em seu texto “Cada um é São Jorge, cada um é Dragão”, ou seja, cada um de nós carregamos dentro de si aspectos virtuosos e sombrios. Cabe a nós domesticar nossos instintos, nossos dragões internos, não necessariamente matá-los, afinal não podemos ir à contramão de nossa natureza, castrá-la, mas podemos sim podá-la elegantemente para que não nos tornemos escravos de nossas limitações, paixões e desejos, mas sim que os superemos ou saciemos de forma equilibrada, garantindo assim a tão almejada autonomia e liberdade. Assim como São Jorge, o guerreiro valente e vencedor, fez ao subjugar o dragão ao seu cavalo branco e erguendo sua espada sempre atenta para cortar o mal pela raiz.

Na Torá (corresponde os cinco primeiros livros do antigo testamento da bíblia cristã), por exemplo, quando D`us diz  na parashat kedoshim “sereis para mim santos” (Levítico 20: 26)  não significa castidade e um asceticismo exacerbado até mesmo para um cohen (sacerdote da Torá) ,mas sim significa em subordinar os elementos inferiores aos superiores: os sentidos ao coração, o coração ao raciocínio, o egoísmo ao dever.  O Midrash deste levítico diz ainda: “aquele que refreia as suas paixões, que as dirige ou as liberta se for o caso e se torna dono de si mesmo, aproxima-se da santidade”.

Tendo, portanto, essa noção que há uma vertente na cabalá, chamada de cabala draconiana que se ocupa em investigar o estudo da “Luz” e das “Trevas” em diversos âmbitos, tendo o dragão como um arquétipo muito destacado, relacionando-o as forças qliphóticas ou sombrias do universo cabalístico.

A lua e São Jorge é uma referência de antigas crenças populares ocidentais as quais dizem que as manchas apresentadas pela lua representam o milagroso santo e sua espada em riste, firme e forte, para defender aqueles que buscam sua ajuda.

Na verdade a lua no âmbito magístico da umbanda sagrada e do tarot (corresponde a carta XVIII) aparece como uma força natural e de arquétipo recheados de poderes ocultos, muitas vezes obscuros e obsessivos, daí porque a magia divina, seja na umbanda ou na cabalá, dentre outras religiões místicas, são tão cautelosas em determinas atividades magística que demandam algum tipo de influência da lua.

Este é apenas um aspecto da lua que se está destacando, existem muitos outros, aliás, os Wiccanos tem uma relação mais favorável com esse “ser”, mas é justamente nesse aspecto sombrio e no campo das obsessões que o santo guerreiro é invocado no combate dessas forças mais tenebrosas para prevalência das virtudes e das boas energias.

São Jorge é Ogum, mas Ogum não é só São Jorge, pois é orixá e sendo um co-criador divino transcende o santo. Ogum está em todos os elementos da natureza, em todos os lugares, férreo, afinal é o trono masculino da lei, irradia perenemente a lei divina em ação na vida dos seres humanos, não de forma totalitária, não força ninguém a nada, mas executando-a, como um bom “general” de Oxalá que é, carregando a bandeira da paz , em especial, para aqueles que buscam a lei, o equilíbrio, a harmonia e senso de ordem em suas vidas. Por isso ogum é o que vem a frente, abrindo os caminhos, protegendo e vencendo demandas.

Dificilmente pessoas autoritárias, possessivas, cheias de picuinhas, preconceitos, fanáticas e por fim homofóbicas conseguem alcançar essa energia ordenadora de forma plena, se é que conseguem alcançar algo, bem como energias de outras emanações divinas, de outros orixás que são “seres” do mais puro amor... 

Como diz o ditado popular não se pode servir ao céu e ao inferno, digo internamente, o que adianta falar de amor e luz, senso de justiça, liberdade, fazer orações, trabalhar numa gira de umbanda e prestar "caridade", mas se o coração e as “mãos” estão cheios de perversidades, recalques, mágoas e ódios. Sempre a maldizer, amaldiçoar o outro por ter lhe desagradado, por ter ferido o ego, até quando viver numa guerra eterna consigo próprio? Bom, já está em tempo de se desarmar e se pacificar, assim entrar em sintonia harmonicamente com as forças de Ogum.

Nesse dia 23 de abril possamos alimentar e absorver verdadeiramente a coragem iluminada de São Jorge de enfrentar os perigos com sabedoria, lutar pelo que se acredita e o que nos faz bem e juntamente com a falange de Ogum leve tudo que não nos sirva mais, conceda-nos libertação de todos os males e abertura das portas para o bem individual e coletivo em todos os aspectos de nossas vidas.

Salve esse dia! Salve Jorge!

Oguniê patacori, meu pai!

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