CARTA PARA UMA VELHA AMIGA DOS ANOS DE 1970

10/03/2017 22:56

 

Talvez, a melhor amiga é aquela que não fala mais contigo. E já não saber mais o motivo que lhe levou o silêncio, se é que houve causa real, fictícia tem muitas. Acompanha de longe teus passos e te observa da rua pela sacada da janela, apaixonadamente. Sinto suas vistas passionais na minha nuca. Chega até ser esquisito e nem tanto sombrio. E até torce por ti ao passo que te detesta por fazer diferente e sustenta para a plateia que acompanha a fachada de sua casa que o seu lugar é distante da pessoa que mais admira, quiçá ama (?)

Meu amor,

A única coisa em avaliação somos nós.

Os estágios já foram aprovados.

E realmente vou conhecer as outras estações.

O vôo já tem hora marcada.

O choro nem sempre vem do medo

Talvez seja a velha emoção de sentir muito

Da lua em câncer

A beleza, a claridade, o ordenamento do parto

Beber da fonte disciplinadamente

Questioná-la, inquiri-la

 É uma dor quase elegante interpretá-la.

Nada mais solitário que o ato de escrever.

Contudo, a inspiração te traz grandes companhias.

As mãos orientadoras que te conduz

Até onde precisa brotar a semente

Organizar as palavras e as orações.

O poder da escriba.

A rosa mais antiga que abre as portas

Tão quanto pode ser cruel e devastadora com os iniciantes.

O cravo mais calejado que ilumina as ideais.

Transformador. O velho mensageiro que tem muito a dizer.

Instrumentaliza a esperança.

Pequeninos, ouvimos, perguntamos.

O saber mais profícuo vem com a sabedoria.

Aprender a decifrar o mundo

Para subverter. Libertar...

Defender uma posição

Concluir um ciclo.

Voltar para casa.

Não necessariamente nessa ordem,

Afinal como nos ensina a matemática

Exatamente,

As ordens dos fatores não alteram o produto.

Daquilo que é inevitável.

Finalizo a carta em versos com desejo de melhoras, alegria, liberdade, produção e saúde. Ás vezes, recebo suas correspondências mentais que nada me servem a não ser rezar, pois o abstrato é pertinente muito mais para questões do sentir, do reinventar uma obra de arte ou literária, já a comunicação, os registros, as cartas são fontes concretas que fazem os mensageiros se movimentar para transformar e realizar. Assim as pombas giram, voam e se beijam.

“No dia em que fui mais feliz /Eu vi um avião/Se espelhar no seu olhar até sumir/De lá pra cá não sei/Caminho ao longo do canal/ Faço longas cartas pra ninguém/ E o inverno no Leblon é quase glacial” (Adriana Calcanhoto)

Belém, 10 de março de 2017

Com carinho e afeto

Alanna Souto.

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