2015 d.C: MARTE E ALGUMAS LIBERTAÇÕES

29/12/2014 09:08

fonte: scene of movie Mars attacks 

Por Alanna Souto

Dois mil e quinze anos depois de Cristo no calendário gregoriano ressoa em nossos ouvidos sob trombetas dissonantes, sobretudo, depois das indicações de ministros do novo Governo Dilma que de “novo” só tem a mudança da data de seu funcionamento e uma governamentalidade ainda tão velha quanto universo de interesses convenientes que deseja muito mais saciar do que transformar.

Nesse quesito tão secular quanto a gestão de pessoas e coisas do mercantilismo, aquela pontuada por Foucault em “Microfísica do poder”, que almejava a todo custo corresponder muito mais ao soberano do que a população, no caso atual os “soberanos”, “os príncipes”, os velhos coronéis do latifúndio, representados por Katia Abreu passando pela corruptela das grandes industrias Armando Monteiro, mas não terminando por aí, ainda há espaço, é claro, para o fanatismo religioso defecar em nossas mentes no ministério dos esportes.

Enfim, meus caros, assim como arte de governar em meados do século XVIII buscava desbloquear-se da força do soberano para gerir livremente, assim o povo em pleno 2015 terá que dar uma mãozinha a Dilma para se libertar desses suseranos, por exemplo, indo as ruas, fazendo algumas greves, paralisando alguns órgãos, quem sabe até barricadas, já que a estratégia parece ser reviver os velhos tempos, assim forçando-a executar a gestão social com mais vigor que prometeu em sua campanha de reeleição e que fez muitos, inclusive eu, votar em sua candidatura.

Saio do âmbito da política para focar num tema que muito me apetece refletir também, pois é algo que tenho estudado há cerca de 2 anos, obviamente nos momentos de folga de minha tese de doutoramento, que é a temática do fanatismo religioso que se não fosse nocivo não atravessaria seus templos para se infiltrar na política.

Recentemente assistir um filme trash chamado “Sacramento” do diretor Ti West, certamente inspirado no massacre liderado pelo pastor Jim Jones nos anos de 1970, a película retrata uma comunidade religiosa aparentemente perfeita chamada paroquia “Eden Parish” localizada no Mississipi aonde todos os seus membros viviam isolados, longe de qualquer convívio social, venderam todos seus bens doaram para paróquia em busca de paz, atenção, viver uma vida longe de conflitos e desigualdades sociais é o  que rezava a cartilha comandada por seu líder-mor, chamado por todos de pai. No decorrer do filme as facetas dessa comunidade vai caindo por meio do discurso fundamentalista do seu líder, posicionando-se sempre de forma agressiva diante de qualquer intervenção crítica a respeito de sua paroquia e por fim induzindo o suicídio coletivo.

Obviamente que este desfecho suicida grupal é de um extremismo absurdo, contudo, foi uma realidade nos anos de 1970 quando o Pastor Jim Jones levou a morte aproximadamente 1000 membros de sua comunidade religiosa nas Guianas, suicidando-se em seguida.

A realidade de comunidades religiosas desse perfil, infelizmente, não ficou no século passado, ainda há seus “reencarnados” em pleno século XXI e estão cada vez mais evidentes, não são milhares de grupos assim, graças, mas algumas dezenas espalhadas por aí conseguem arregimentar centenas de pessoas para pregar o terror no mundo, desertificação, invasões extraterrestres e a salvação nos braços do líder de seu templo, só ele e seus “guias” podem salvar a humanidade, segundo suas previsões apocalípticas do fim do mundo.

Normalmente costuma-se associar esse tipo de bandeira as religiões neopentecostais, mas atualmente podemos detectar os sinais dessa banalidade do mal em alguns outros templos de outros cultos religiosos. Já escrevi sobre isso em outros momentos (www.semeadura.com/products/dez-megas-dicas-para-exercitar-o-livre-pensar-em-templos-umbandistas-grupos-religiosos-ou-afins-/ ; Identidades - textos templos sagrados Parte I e II), mas cabe agora chamar atenção especificamente aos comportamentos mais nocivos que podem até mesmo enganar os olhos de pesquisadores mais céticos pelo discurso muito bem maquiado dentro comunidade, o que lembra muito as técnicas de comunicação dos pastores pentecostais, bem verdade.

Aqui listo algumas notificações para que você observe caso esteja frequentando alguma seita ala “Jim Jones”, seja da religião mais improvável possível para tais fins, contudo caríssimo leitor não duvide da capacidade de manipulação e destruição dos seres humanos, pois são eles que fazem as religiões, infelizmente, não o contrário como deveria ser em tese. As guerras políticos-religiosas estão aí até hoje para provar desse marciano negativo quando direcionado para finalidade que não seja apenas religare e a conexão. Seguem as notinhas, peguem o caderninho, anote, observe e se questione:

1)      Compare o discurso paz, amor, comunidade solidária, direito a vida, educação no templo com que é realmente dito e praticado por seus membros e líder-mor nas redes internas e sociais.

2)      Preste atenção na prática educacional baseada na verdade única. É paz, amor e respeito, a bandeira. Então, pergunte-se, por que seus membros e líder atacam ferozmente quem profere palavras contrárias a respeito de sua culto?

3)      Ou por que se arrogam os únicos detentores da palavra sobre a religião que pode ser vista e vivida de milhares outras formas por quem a estuda e a pratica?

4)      Outra questão importante a se pensar sobre o tipo do processo educacional nesses templos (igrejas, tendas, terreiros...) como permitir que seja embutido nas pessoas, incluindo, as crianças a prática do etnocentrismo execrando fundamentos milenares de outras religiões não somente entre os muros de suas “igrejas”, mas cuspindo ódio e extremismo para fora desses muros em suas páginas virtuais e/ou em redes sociais. Ignorando o significado de liberdade e tolerância religiosa.

5)      É preocupante pensar ainda o adulto fundamentalista que essas crianças irão se tornar. O discurso do respeito a vida travestido de agressão para com aqueles que não rezam a cartilha da verdade única, basta discordar ou não dar ouvidas a suas demandas, palavras raivosas, chulas sairão de suas bocas tudo em defesa ao amor pela religião que somente eles dizem conhecer ninguém mais pode. De forma parecida Hitler implementou nazismo embutindo desde cedo nas crianças o “apontar do dedo” aos diferentes, qualquer semelhança não é mera coincidência.

É interessante notar que para essas pessoas elas não fazem nada além de educar e cumprir sua missão na face da terra, como seres especiais que trabalham em prol da salvação da humanidade e dos animais. O problema como pode ser observado não é a causa, pois ela em si é nobre, mas sim a forma unilateral, etnocêntrica e totalitária que é feita em seus debates por seus membros.

O que numa pesquisa de campo com os salvadores em sua comunidade pode indicar tolerância e respeito, contudo na prática do discurso verificando mais a fundo a colmeia, poderá ser visto claramente em seus debates, inclusive midiático, o nível de intolerância e agressividade para quem não segue suas ideologias. É nesse momento que se mostra a outra face da moeda dessas comunidades que pregam a salvação, isolamento e ojeriza ao mundo para o entendimento do fanatismo.

E ao passo que esse fanatismo e sua visão enviesada da fé busca anular a capacidade de pensar, tendo em vista que em seus direcionamentos unilaterais vai sendo transmitido sem espaço para questionamentos de geração para geração o que consequentemente se institucionaliza aquilo que Hannah Arendt chamou de banalidade do mal. Afinal sacrificar o pensar, não seria o tipo de ato de matar, assassinar...holocaustos do pensar? O cotidiano nulo de pensamento crítico, apenas disposto a aderir.

Triste ainda constatar a tendência dessas comunidades religiosas a se retirarem do convívio social e partirem rumo a isolamento longe das cidades, obviamente, pois estão fadadas ao fracasso quando expostas suas feridas e assim longe dos centros possam executar com maestria e sem questionamentos seus campos de concentração. Não se percebem, assim como os adictos, o quanto estão viciados em um absolutismo e num extremismo altamente nocivo para consigo e pior, para com as pessoas inocentes que capturam em seus discursos catequéticos/colonizadores, escravizando sua capacidade de pensar autonomamente...e assim sentir verdadeiramente.

É meus caros, talvez Marte, planeta regente do ano vindouro, contra-ataque, assim como certamente vai ser turbulento os 365 dias do governo Dilma em 2015. Desde já vamos desejar que Oxalá harmonize e Ogum liberte tanto os reféns do fanatismo quanto a presidente Dilma das mãos dos “suseranos”.  O método é indubitavelmente cármico e por conta da lei da ação e reação, mas, sobretudo, do grau de “despertar” do povo: “desejo, necessidade, vontade, necessidade, desejo, eh!” .

 

SARAVÁ!

Tópico: 2015 d.C: MARTE E ALGUMAS LIBERTAÇÕES

Nenhum comentário foi encontrado.

Novo comentário