A UMBANDA NA MÍDIA

04/10/2014 01:14

 

 

Por Alanna Souto

Refletir sobre umbanda na mídia nos leva a situar o encontro de culturas na memória social dos povos tradicionais, sobretudo, o povo africano tão importante na constituição da Umbanda no cenário religioso brasileiro, sendo um dos elos do seu amplo universo simbólico. Fazendo frente assim junto com os afro-religiosos por uma trajetória de resistência, luta por reconhecimento, legitimidade, liberdade, desmitificações de tabus e combate contra todo tipo de preconceito.

É importante lembrarmos que a perseguição a afro-religiosidadade remonta há mais de 500 anos no Brasil. E seus principais tabus a respeito do seu processo ritualístico e de suas divindades foram criados, especialmente, pela Igreja Católica Apostólica Romana associando seus rituais a feitiços perversos, aonde uma das divindade mais enxovalhadas por esses colonizadores foi Exu, relacionado a inferno e demônios na perspectiva mais etnocêntrica possível. O que levou os povos africanos a usarem como estratégia para sobrevivência de suas reverências a divindades a associação dos orixás aos santos católicos, a exemplo dos mais conhecidos Ogum relacionado a São Jorge; Santa Barbara á Iansã; Nossa Sra. da Conceição á Iemanjá; Oxossi a São Sebastião e assim por diante.

Tais discursos etnocêntricos do período colonial serão reproduzidos nas notas dos primeiros jornais em meados do XIX e até no decorrer do século XX sempre associando os rituais afros e os cultos de pajelanças á práticas e concepções de selvageria (FIGUEIREDO, 2008). 

E mesmo com a proclamação da república em 1889 quando a religião católica deixa de ser religião oficial do Estado, ainda assim, os cultos afros permanecem no código penal como delito de crime “praticar o espiritismo, a magia e seus sortilégios, usar de talismãs e cartomancias, para despertar sentimentos de ódio ou amor, inculcar cura de moléstias curáveis ou incuráveis, enfim, para fascinar e subjugar a credulidade pública” é o que dizia o artigo 157 do código penal.  Sendo que em 1949 devido a influência da elite branca e eurocêntrica dos adeptos do kardecismo foi retirado o termo “espiritismo” do código penal, permanecendo todos os outros termos pejorativos e intolerantes referentes aos cultos afros com intuito, óbvio, de perseguir e proibir sua prática.

No inicio do século XX, precisamente, no dia 15 de novembro de 1908 nasce à umbanda , em Niterói- RJ, anunciada por Zélio Fernadino de Moraes por meio do Caboclo da 7 encruzilhadas, tal acontecimento levará muitos casas de santo que já trabalhavam com entidades em seus rituais, a exemplos de caboclos e pretos velhos, a abraçarem a Umbanda como religião pela identidade de culto e, também, por uma alguma segurança devido a aproximação com o espiritismo que lhe resguardavam sutilmente da perseguição policial.

Assim a primeiras casas de umbanda reflexo dessa conjuntura tiveram nomes ligados ao espiritismo, o próprio templo do fundador da umbanda Zélia Fernandino de Moraes foi batizado de Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade, mas como uma forma de burlar e se esquivar da opressão.

Neste período, em especial, na era Vargas tanto a recém-nascida umbanda quanto as religiões de matriz afro ainda eram severamente silenciadas nas diversas mídias e quando referenciadas sempre da forma pejorativa do passado, relacionando-as á praticas grosseiras de bruxarias ou desordem. A imprensa mais uma vez servindo de instrumento ideológico para manipular a opinião pública e justificar a violência, a invasão nos templos, as prisões dos sacerdotes e todo tipo barbaridade para com os povos de terreiros. Período fortemente marcado pela repressão do Estado populista a essas comunidades.

Todavia, a época de ouro dos umbandistas foram os anos de 1960 e 1970, quando a umbanda explode enquanto religião, assim como o Candomblé também tem uma ascensão, especialmente na Bahia, sendo vistas, sobretudo, pelo movimento cultural e da esquerda da época como religiões libertadoras e portadoras da voz dos excluídos sociais.

A umbanda será destaque em diversas matérias das revistas desta época como Realidade, Manchete, Fatos e Fotos, Revista de História da Biblioteca Nacional, etc. (LINARES & Trindade, 2011, p.30) reflexo de sua explosão demográfica nos anos de 1970, década que se computava cerca de 5 milhões de adeptos, de pessoas comuns a famosos de todos os setores artísticos, todo mundo queria cantar e homenagear a umbanda, de Clementina de Jesus a Clara Nunes; de Vinicius de Moraes aos Doces bárbaros tropicalistas, Caetano, Betânia, Gal e Gil. Logo, ser umbandista nesse momento era motivo de orgulho.

Já no final dos anos 1980 e na década seguinte ocorre um esvaziamento populacional de membros da umbanda muito em parte devido o crescimento intenso das religiões evangélicas de cunho fundamentalista e, também, a “imprensa marrom” retorna a atacar ferozmente os umbandistas bem como os irmãos afro-religiosos,marginalizando-os, assim alimentando e reforçando o medo na sociedade e até mesmo os seus membros passaram a se acanhar em assumir ser adepto dessa religião ( CUMINO, 2010).

É importante entendemos um pouco dessa trajetória histórica da umbanda na mídia para que possamos situar e compreender o importante papel das mídias alternativas (Blogs, redes sociais, rádios comunitárias, TV web, periódicos, etc.) na conjuntura que irá seguir. Tais meios de comunicação irão proliferar nos anos de 1980, década na qual será constitucionalmente garantido os direitos de culto dos povos de terreiro, desse momento até os dias atuais essas mídias serão utilizadas como instrumentos de luta e resistência tanto pelos adeptos da Umbanda quanto pelos afro-religiosos em todo Brasil com objetivo claro de combater o fundamentalismo, a intolerância e, especialmente, esclarecer sobre o que se trata e propõe suas religiões, tendo em vista o crescimento e a violência do fanatismo religioso na sociedade contemporânea, aonde os chefes inquisidores da vez são os neopetencostais.

No Pará atualmente temos os afro-religiosos muito bem engajados e organizados nessa luta midiática combatendo os preconceitos e tabus propagadas pela grande mídia bem mais que os grupos umbandistas, com destaque especial para o AFAIA (Associação dos Filhos e amigos do Ilê Ilyá Omi Axé Ofa Kare) e o instituto Nangetu. O primeiro fundado em 1987 já foi contemplado, inclusive, com o prêmio nacional de expressão de cultura afro-brasileira em 2010, além de possuir um blog e um jornal de circulação, o Agueré, socializando assim seus projetos e atividades com as comunidades negras de terreiros.

O Instituto Nangetu também exerce um papel fundamental no cenário midiático de resistência, fundado em 1988, é uma entidade filantrópica com intuito de promover e lutar pelo reconhecimento das tradições afro-religiosas de raiz Banto em Belém, divulgando suas atividades por meio do seu blog, além de participar de ações em parceria com rádio comunitária, a citar a Resistência FM e até mesmo possuem um projeto televisivo na web, chamado projeto Azuelar que busca dar visibilidade a juventude e aos povos de terreiro debatendo diversos temas polêmicos: racismo, sexismo, homofobia...esses encontros são filmados e transmitidos pela internet.

Abro um parêntese aqui para manifestar o quanto podemos aprender com esses irmãos afro-religiosos, em especial, com o povo do Nangetu no sentido do protagonismo e a ação de vanguarda na habilidade e organicidade midiática que tem desenvolvido para o fortalecimento de uma comunicação mais justa no que diz respeito às culturas afro-brasileiras.

E é neste contexto de luta e resistência no âmbito midiático que surge o blog Semeadura o qual criei em 2012 com objetivo principal de tratar sobre a umbanda. O que é umbanda? Quais seus fundamentos? Sua cosmogonia... A trajetória dos povos que se engajaram na luta de formação da religião, identidades e diversidades.

Os textos do blog que versam sobre umbanda buscam refletir e também inquirir cada uma dessas questões. Em especial esclarecer do que se trata a umbanda, geralmente confundida com o candomblé ou mesmo o tambor de mina ou outra religião afro-brasileira. Religiões as quais pessoas costumam na maioria das vezes botar tudo no mesmo saco do preconceito do distorcido termo macumba.

A umbanda é uma religião genuinamente brasileira e por ter influência forte da raiz afro é comumente enquadrada como uma religião de matriz africana. Contudo, estudos mais recentes, a exemplo dos trabalhos do sociólogo Lísias Negrão e do cientista da religião Alexandre Cumino que irão analisar a matriz dessa religião a partir do seu campo simbólico universalista, reconhecendo a influência dos mais diversos matizes culturais, o kardecismo, catolicismo popular, a cultura afro, o xamanismo, o esoterismo, dentre outras vertentes espirituais que permeiam a constituição filosófica e ritualística da umbanda.

O semeadura engaja-se nesse sentido nas trincheiras das mídias de resistência no combate do preconceito sobre a cultura popular brasileira, miscigenada e sincrética na qual a Umbanda será o espelho de toda essa brava gente do país — assentada numa forte identidade, estética, linguagem, manifestações e representações dos espaços vividos dos povos ancestrais indígenas ; dos caboclos amazônicos ; dos sertanejos nordestinos e das comunidades negras rurais e urbanas — durante muitos séculos silenciada em suas trajetórias históricas. Portanto, atuando no campo da liberdade religiosa, exorcizando todo tipo de fundamentalismo e fanatismo religioso.

 

Saravá!

 

REFERÊNCIA

CUMINO, Alexandre. A história da Umbanda- Uma religião brasileira. Ed.Madras. 2010.

FIGUEIREDO, Aldrin Moura.   Assim como eram os gafanhotos: pajelanças e confrontos culturais na Amazônia no início do século XX. In: MAUÉS, Raimundo Heraldo & MACAMBIRA, Gisela. (Org.). Pajelanças e religiões africanas na Amazônia. Belém: EDUFPA, 2008.

LINARES, Ronaldo Antonio & TRINDADE, Diamantino. Memórias da umbanda do Brasil. São Paulo.Ed. Icone, 2011.

NEGRÃO, Lísias. Entre a cruz e a encruzilhada. Formação do campo umbandista em São Paulo. São Paulo, EDUSP, 1996. 

 

SITES

 http://institutonangetu.blogspot.com.br/

http://afaia-afaia.blogspot.com.br/

http://www.semeadura.com/

Jornais da Umbanda Sagrada- Colégio Pena Branca

http://www.colegiopenabranca.com.br/jornal.html

            

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