A ENCANTARIA AMAZÔNICA NA UMBANDA - PARTE I: OS ENCANTADOS E A ENCANTARIA

20/02/2013 12:56

 

 

 

 

fonte da imagem: http://umbanda-minha.tumblr.com

 

Alanna Souto

Msc.História Social da Amazônia 

 

Na umbanda, na “Mina” ou mesmo em outras linhas de matizes africanas que adentraram os cultos religiosos brasileiros na Amazônia e no Brasil em geral muito já se ouviu falar no reinado da encantaria ou encanteria, como dizem os nordestinos. Na região Norte e parte do Nordeste, em especial do Pará ao Maranhão, há uma linha de encantados, ou melhor, dizendo encantadas que raramente são encontradas em outras regiões do país, são elas, as “três irmãs da língua ferina” [trecho de um dos seus pontos cantados], as caboclas: Mariana, Herondina e Toiá Jarina. Obviamente que devem existir outras entidades também mais atuantes e típicas do habitat sagrado amazônico, mas a ênfase aqui as essas três caboclas se dar pela imensa popularidade delas na região e de sua diversa simbologia, representações, especificidades e similaridades existentes nos cultos que as invocam. Todavia, devemos entender primeiramente o que é ou que significa encantaria.

Segundo os “olhares” antropológicos dos pesquisadores Raimundo Heraldo Maués e Reginaldo Prandi, os encantados são mestres, caboclos, pretos velhos e erês , assim como suas contrapartes correspondentes os exus de lei na linha da umbanda, além de outras entidades do panteão afro-brasileiro, os quais são concebidos como espíritos de homens, mulheres ou crianças que desencarnaram ou então passaram diretamente deste mundo para um mundo “mítico” invisível, como não tiveram a experiência física da morte: diz-se que se “encantaram”.

De forma mais pessoal, já que são diversas as visões no âmbito da umbanda sagrada, entendo como encantaria todos aqueles reinos conhecidos ou não que habitam em Aruanda [Reino iniciático do Grande Astral Superior] os quais muitos desses servirão de portais de ancoramento para com o planeta Terra e a humanidade, dando-lhe auxílio, proteção e amor junto a Deus-Pai, o criador, a exemplo do reino das sete cidades da Jurema, que se diga de passagem, muito trabalhado e conhecido na linha de catimbó do seu José Pelintra que por meio de uma bebida sagrada feita com as ervas “mágicas” da planta Jurema e do uso do fumo no cachimbo realiza sua liturgia ritualística levando transcendentalmente seus pacientes a esse reino e lá junto com outros mestres realizam curas, desmancham baixas magias e auxiliam no desate de nós cármicos, para quem já participou desse trabalho num templo sagrado ou através dos sonhos, viu e sentiu nos seus brios a força desses “mundos paralelos” e de seus mestres, como diz o dito popular: “só sabe quem passa,quem vivencia...”,que nem a dor e o amor. Tais reinos são reconhecidos por muitos esotéricos, místicos e umbandistas os quais os chamam de “mundo real”.  

É a busca labutativa para a travessia dos “portais” [astrais, oníricos ou terrenos por via das matas, cachoeiras, pedreiras, escondidos em muitos lugares do mundo e com muita força na Amazônia, todos esses “portais” sob a vigília dos Exus, guardiões de Aruanda] e finalmente a libertação da vida material diária, das ilusões terrenas, a saída da “matrix” para os reinos ou “mundo real”, a qual dependerá não somente dando passagem aos guias e servindo de instrumento de cura, isso não é garantia de ninguém para uma vaga no “paraíso” e nem do perdão de todas suas dívidas, afinal Deus é misericordioso, mas acima de tudo é justo! Mas dependerá muito mais da nossa conduta enquanto ser humano, o reconhecimento de nossos erros, o exercício diário da humildade, tolerância e compaixão. Do que adianta possuímos uma mediunidade, se alimentamos para nós mesmos e aos outros, farsas e máscaras? Se somos intolerantes, fascistas para com o próximo? Basta pisar no nosso calo que de “anjinhos” viramos “monstrinhos”?! É o perigo que todos corremos de nos tornamos pequenos mestres de muletas, mestres capengas...

É importante frisar ainda que nem todos os encantados fizeram parte da evolução humana e muitos desses desconhecemos suas histórias e origens, afinal “mistérios sempre há de pintar por aí...”.

 

Na parte II, trataremos sobre as caboclas encantadas: Mariana, Herondina e Jarina.

 

Saravá a grande Aruanda!

 

 

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